Desde a aprovação, em Junho de 2008, da lei brasileira de número 11.705, a famosa Lei Seca, ficou oficialmente ilegal ingerir bebidas alcoólicas e sair por aí dirigindo. Dizem que basta uma caneca de chope para se perder a habilitação.
No começo, o impacto nos brasileiros foi grande. Bares vazios, menos noitadas, mais reuniões em casa. Surgiu o amigo da vez, aquele que seria o motorista do grupo e passaria a noite à base de energético on the rocks. As blitz pareciam estar em cada esquina e a apreensão era grande. Até mesmo para aqueles que nem tinham bebido nada. Se fossem “convidados” a passar no teste do bafômetro, já ficavam imaginando que os 0,1 mg\L de alcóol permitidos seriam magicamente ultrapassados.
Com o passar do tempo, a fiscalização foi diminuindo, diminuindo. Só se viam blitz a partir das quintas-feiras. Depois, passaram a ser somente nos finais de semana. Até que sumiram (quase) de vez, só aparecendo nos feriados prolongados e em lugares mais estratégicos, perto de casas de show, boates e barzinhos mais badalados. Alguns até chegavam a dizer que a lei não tinha vingado, ou que o consumo grande de bafômetros tinha surpreendido os fornecedores, que não estariam conseguindo dar conta do recado.
Depois de um tempo sem muito ouvir falar da Lei Seca, ao chegar aqui no Rio me deparei com a sensação de que ela voltou à toda (ou de que nunca tinha ido embora). Blitz acontecendo não somente nos finais de semana. Já vi uma em plena segunda-feira, parando todos os carros que passavam e causando trânsito na Av. das Américas. Pesquisas apontam uma considerável diminuição na quantidade de acidentes causados por motoristas alcoolizados. Só em maio deste ano, o Rio apresentou uma queda recorde de 36,2% em relação a 2008. Em agosto, a queda foi de 23,3%. E em setembro, 27,2%. Calcula-se que mais de 2.500 vidas foram salvas desde o dia em que a lei entrou em vigor. Os frutos estão sendo bons.
Devido essa intensa procura pelos infratores, as blitz aqui no Rio (e acredito que seja também a prática adotada pela maioria das cidades grandes) aparecem em lugares diferentes todos os dias. É quase impossível adivinhar onde vamos ser surpreendidos por uma. Sinceramente, acho que é uma boa estratégia. A rotina levaria ao descaso e os motoristas simplesmente seguiriam por outro caminho.
Acontece que, o brasileiro costuma dar um jeitinho para tudo, não é verdade?
Chegaram a criar um twitter, cujo objetivo declarado é o de apontar os locais em que as blitz estão acontecendo, desde o momento que elas estão se formando, como forma de evitar engarramentos. Mas isso fica nas entrelinhas, para quem quiser assim interpretar. Com pouco mais de 3 meses de criação, já conta com mais seguidores do que o de muitos famosos. Ele responde por @LeiSecaRJ. As atualizações apontam para diversos lugares da cidade e já são quase 3.000.
Bom, mas para quem não é acostumado a usar o Twitter, e não é adivinho, ainda tem a possibilidade de se recusar a fazer o teste, pagar uma multa e ter o carro apreendido. Ou então ter cara de pau suficiente e sair de marcha ré para fugir do flagra. Ou pode ainda desembolsar de R$ 10 a R$ 20 e contratar alguém para dirigir somente nos trechos de blitz.
Mas há quem seja ainda mais criativo.
Semana passada, aconteceu um “evento” engraçado envolvendo dois conhecidos, o Bruno e o Rafael, e que me levou a escrever esse post. Era uma quarta-feira, e os dois haviam saído após o trabalho para um happy hour. Lá pelas tantas da noite, depois de muitos chopes no sangue, resolvem ir para casa. O Rafael voltou dirigindo, segundo ele próprio, tinha bebido muito menos do que o Bruno. Quando estavam na metade do caminho, viram uma blitz.
Já era tarde demais, não tinham como voltar. O jeito era contar com a sorte de não serem parados. Claro que foram. O movimento de carros não era grande e estavam abordando todos. O guarda pediu os documentos do veículo e olhou os ocupantes, que naquele momento se esforçavam para fazer a melhor pose de lúcidos que podiam. Não deu outra. O Rafael foi convidado a conhecer o tão temido bafômetro.
Na fila para o teste, ficou pensando em dizer ao policial que não iria fazê-lo. Só que na vez que teve o seu carro rebocado (não por causa da Lei Seca!) foi um transtorno sem fim para recuperá-lo. Mas ele sabia que ia ser flagrado. Resolveu não fazer o teste. Não queria de jeito nenhum perder a habilitação. O guarda então disse que iria apreender o carro se ele não tivesse ninguém que pudesse sair da blitz dirigindo. Quando já estava pensando em quem acordar para tirá-los dali, o Bruno virou e disse que ele mesmo faria o teste. Se fosse pego, o máximo que aconteceria era eles terem que realmente arrumar outra pessoa para dirigir, já que o Bruno não era o motorista.
Dito isso, saiu de perto da fila do teste e sumiu por um tempo. Rafael pensou que ele fosse ao banheiro e que voltaria rápido. Só que ele demorou mais que o esperado. Rafael já estava com ar de desespero quando o Bruno reapareceu. Estava com uma ponta de sorriso. Rafael ficou imaginando o que danado ele havia aprontado.
Bruno fez o teste. Resultado: 0,0 mg/L. Inacreditável! Impossível! Saíram de lá de carro e com a felicidade de ter burlado a bafômetro.
O que o Bruno fez? No tempo em que ficou sumido, foi até o porta-malas do carro, onde estava a mochila que leva todos os dias para o trabalho. Precisava encontrar alguma coisa que diminuisse o cheiro de álcool. Perfume, creme dental, chiclete, bala de menta, qualquer coisa. Mas só achou um sabonete. Não teve dúvida, pegou um pedaço, mastigou e engoliu!
E aí, vai arriscar também?